A Sedese realizou, entre os dias 14, 15 e 16, no Parque Municipal Américo Renné Giannetti, em Belo Horizonte, em parceria com o MST, Centro de Formação Francisca Veras, Secretaria Estadual de Cultural e CEMIG, o II Festival Estadual de Arte e Cultura da Reforma Agrária foi prestigiado por mais de 50 mil pessoas durante os três dias de evento. Os visitantes puderam saborear as delícias da Cozinha da Roça, com sabores de oito regiões mineiras e 30 opções de pratos típicos, com destaque para a moqueca especial do Espírito Santo, além de se divertir com os 105 artistas, nas mais de 30 apresentações culturais.

Para as amigas Flávia Julião e Maria Ducarmo Godinho, pedagoga e assistente social, respectivamente, assíduas frequentadoras das feiras realizadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), ações como esta são admiráveis. “A gente ter acesso aos produtos do Movimento é maravilhoso, precisamos apoiar os movimentos sociais, principalmente no nosso país”, afirmou Flávia Julião. “A importância de nós estarmos fortalecendo essa resistência a favor do pequeno produtor, para que ele não saia da terra, para que ele produza, sobreviva e tenha isso enquanto direito de vida deles”, completou Maria Ducarmo .

Elas que conhecem o Movimento desde o seu início, falam sobre o valor de eventos como esse para conscientizar o público que ainda não sabe o que é o MST. "Nós temos que fazer sempre esse tipo de ação para a gente trazer o movimento social para a rua, para que a gente possa divulgar o que está acontecendo em termos da agricultura e cultura, quanto mais a gente fizer, melhor!", defendeu Flávia Julião.

O casal Lucymara Amaral e Mauro Lúcio, ela professora e ele taxista, também marcou presença no Festival. Para o taxista é muito emocionante fazer parte desse evento. “A energia é muito boa, são pessoas que trabalham com a terra e produzem o alimento, além disso, a gente vê também a discriminação que eles sofrem, porque se as pessoas se soubessem o que é reforma agrária e o Movimento não teriam essa visão”, afirmou o taxista. Para Lucymara, eventos como o que aconteceu no Parque Municipal são formas de luta. “É uma forma de lutar por algo que já devia ter sido feito há muito tempo, que é a reforma agrária no Brasil, é um direito à terra, um direito do trabalhador brasileiro. Então essa história, em um momento como esse, deve ser contada porque com certeza há pessoas aqui que talvez não saibam da história do MST, ou seja, é uma oportunidade de divulgação”, enfatizou.

O Festival trouxe ainda 50 toneladas de produção dos 120 acampados e assentados do MST, com uma diversidade de mais de 150 produtos. Wilson Leonel de Oliveira, integrante do MST do Alto Paranaíba há 10 anos, esclarece que a formação proporcionada pelo Movimento vai muito além dos conhecimentos sobre os produtos. “A formação do MST traz o conhecimento para gente não ser escravizado, para a gente fazer uma plantação orgânica, onde nós não seremos mortos com o veneno do agrotóxico, isso é um início. Politicamente, dentro do movimento nós trabalhamos muito em coletivos, ou seja, são companheiros e companheiras trabalhando para realizar essa grandiosa feira”.

Há 17 anos no MST, Inir Gomes Santos, do MST do Vale do Jequitinhonha, conta como a região do Vale é abundante em produção e fala ainda da importância de feiras como estas para difundir o conhecimento para o público. “O Jequitinhonha tem uma variedade de produção - feijão, milho, verduras, legumes, frutas, leite, queijo, requeijão, farinha, tapioca, pamonha, galinha, porco, carneiro e produtos de artesanato - e é muito importante pra gente divulgar o nosso trabalho. O MST, para muitas pessoas, era visto pela televisão e por suas ações, era tido como um movimento baderneiro, mas são poucas as pessoas que conseguem entrar nos nossos assentamentos e acampamentos e ver que tem uma enorme produção e que a gente vive dela”, esclareceu.

O reflorestamento de áreas degradadas também é destaque entre as ações do MST, como explica Lúcia Martins Pereira, agricultora e integrante do MST do Vale do Rio Doce. “Nós somos um grupo de mulheres assentadas que tem a tarefa de reflorestar as áreas de assentamento do Vale do Rio Doce. Com esse trabalho de recuperação das áreas degradadas a gente vai criando a nossa renda e restaurando a natureza, que foi toda destruída pelo antigo dono”, explica ela ao se referir ao Grupo Mulheres da Terra - Gerando renda na construção da agroecologia.

A ação que já dura três anos, surgiu da observação de um modelo ultrapassado. “A gente viu que o modelo antigo é só de tirar da terra e de nada devolver, então com muito estudo, conversa e encontros, a gente descobriu que não adianta a gente só tirar da terra, nós temos que repor”.
O trabalho de recuperação de áreas, feito pelas mulheres, é difícil. Exige cercamento de nascentes, replantio de mudas nativas e uma nova forma de produzir. "Enquanto a gente está reconstruindo a natureza, também estamos nos reconstruindo. São às vezes mulheres que foram violentadas e sofreram muito abuso, e que agora estão se reerguendo junto com a terra degradada”.

Parcerias

Para o subsecretário de Trabalho da Sedese, Antônio Lambertucci, apoiar ações como o Festival é de fundamental importância. “O Festival é um espaço em que é demonstrada a produção da agricultura familiar em Minas Gerais. Ele tem um aspecto cultural muito forte, além de um aspecto abrangente de segurança alimentar. Tudo isso se soma às iniciativas no âmbito de trabalho, emprego e renda que a Sedese tem desenvolvido”, afirmou.

Para ele, a realização de parcerias para a realização dessas ações, potencializam as iniciativas como as que a Secretaria tem na criação de espaços de comercialização dos produtos produzidos pelos empreendimentos. “Eventos como as feiras e festivais tem um caráter comercial muito abrangente, na medida em que há uma comercialização imediata, mas há ali também momentos de realização de negócios futuros”, completou.


30 anos de luta

O II Festival Estadual de Arte e Cultura da Reforma Agrária marcou ainda os 30 anos do MST em Minas Gerais. Para Sílvio Neto, membro da direção nacional do MST, esse período foi de muita luta e resistência, mas também de muitas conquistas. “Nós tivemos, ao longo desses anos, conquistas importantes, conseguimos assentar nove mil famílias em Minas Gerais que conseguiram o seu pedaço de terra através da luta do Movimento. Temos hoje cinco mil famílias acampadas em todo o estado, tivemos também acesso a educação, conquistamos a alfabetização de muitas famílias no meio rural e também tivemos acesso à produção”, afirmou.

De acordo com ele, a história do Movimento é marcada por muita perseguição política, mas com a união estabelecida pelo MST foi possível vencer todos esses obstáculos. “Só foi possível resistir esses 30 anos porque conseguimos construir uma aliança muito forte entre o conjunto dos trabalhadores que se referenciam no MST e que acreditam na luta pela reforma agrária”, comentou Silvio, que ainda relembrou, “Nós conseguimos chegar até aqui, a reforma agrária não foi feita no nosso país e nem em Minas Gerais, mas estamos na disposição para caminhar e lutar mais 30 anos para que ela seja exitosa”.

Ainda segundo Sílvio, os próximos anos serão marcados por um período de resistência, mas para o Movimento esta será uma resistência esperançosa. “A esperança para nós não é de esperar, mas sim de lutar. Estamos firmes e determinados para mostrar com a arte, cultura, com a organização popular e também com a ousadia da luta o quanto é legítima e necessária a reforma agrária no Brasil”, finalizou.